Macunaíma
O público engole “Macunaíma” da mesma maneira que o personagem é engolido pelo Brasil, segundo a definição que é dada por Joaquim Pedro: “brasileiro comido pelo Brasil”. Ao espectador não restam dúvidas: se ele viu outros filmes nacionais este ano (1969), e se repassar a qualidade dos demais, chegará tranquilamente a conclusão de que no cinema brasileiro em 1969, não há nada melhor do que “Macunaíma” de Joaquim Pedro. Na difícil tarefa de adaptar o romance de Mário de Andrade, escrito a mais de 40 anos, Joaquim Pedro obteve um resultado que supera as expectativas. Elaborando um filme de nível técnico internacional e visualizando o nascimento, vida e morte deste personagem estremamente obscuro, grotesco, caricatural, cômico, erótico e as vezes banal, um certo tipo como “o retrato do brasileiro de todos os tempos e de todas as regiões”.
A reação do espectador, diante deste filme barroco, cafona e tropicalista, é a melhor possível. Ele ri das situações, ri dos diálogos, ri dos personagens e de tudo que está à volta de
Macunaima, desde de que ele nasce preto (Grande Otelo), e que ele morre autoconzumido. Entre
nascimento e morte, uma vida marcada pelos desajustes, pelo sexo, pelas trapalhadas, pela fauna das selvas e pela selva da cidade grande o Rio, onde os mais fortes comem os mais fracos, onde quem
pode mais chora menos. A fantasia de Mario de Andrade, adquire no romance e no cinema um tom próprio, absurdo e irônico, que coloca em questão os problemas brasileiros de moral, de conceitos, virtudes e vícios e onde não falta antropofagia, forma de consumo que os índios inventaram ao devorar o bispo Sardinha e que Joaquim Pedro usa através de um banquete cruel patrocinado pelo antropófago-mor, o gigante Venceslau (Jardeu Filho). Desse quadro de aventuras sarcasticas, ironicas, sexo e humor é que Joaquim Pedro
retira o seu filme, deliberadamente hippie e rúrtico, gostosamente chanchadesco, ante o qual a platéia se diverte, porque sente desde o início, grande poder de comunicação da obra. O mérito de Joaquim Pedro, pela realização de um filme que realça os elementos do romance de Mario Andrade, deve ser dividido com Grande Otelo, Paulo José e Jardel Filho, representando o Macunaíma preto, o branco e o gigante máu caráter, respetivamente, e impondo aos seus personagens o toque caricatural necessário para enriquecer esta comédia de situações exageradamente ajustadas ao espírito do brasileiro contemporâneo.
09/12/69
Orlando I. Fassoni
Cinema Brasileiro
Amir Labaki